Entendendo o "vazio interior"
Entendendo o "vazio interior"
Sabe aquela sensação de que está faltando alguma coisa, mas você não consegue dizer exatamente o quê?
A vida está andando, você trabalha normal, conversa com as pessoas, resolve suas coisas, e talvez até esteja tudo bem, mas, mesmo assim, de vez em quando aparece aquele sentimento meio difícil de explicar, de que está faltando alguma coisa.
E aí é muito comum a gente achar que precisa encontrar alguma coisa para preencher esse espaço.
Um hobbie novo, um alguém, um trabalho que faça mais sentido, mais dinheiro, mais viagens, mais reconhecimento, mais alguma coisa acontecendo.
E não tem nada de errado em querer essas coisas. O problema é quando a gente começa a acreditar que elas vão resolver uma sensação que, na verdade, está vindo de outro lugar.
Porque pode ser que você não esteja precisando colocar mais coisas dentro de você, e sim, precisando tirar algumas delas.
Eu gosto muito dessa ideia porque ela muda completamente a maneira de olhar para o autoconhecimento.
A gente costuma imaginar que se conhecer é descobrir quem se é. Como se existisse uma versão maravilhosa de nós mesmas escondida em algum lugar e tivéssemos que sair numa busca para encontrá-la.
Mas e se você já soubesse, em algum nível, quem você é?
E se o problema fosse que você aprendeu a não enxergar isso?
Pensa em quantas coisas você foi aprendendo ao longo da vida sobre o que era certo e errado, o que fazia as pessoas gostarem de você, o que poderia fazer alguém se afastar, o que era seguro, o que era perigoso. Você aprendeu a agradar, a se proteger, a não incomodar, a não demonstrar determinadas coisas, a dar conta de outras.
Algumas dessas coisas foram importantes e outras até ajudaram você a atravessar momentos difíceis.
Só que aquilo que um dia foi uma forma de proteção pode continuar funcionando dentro da gente muito depois de já não ser necessário.
E aí você começa a tomar decisões com base no medo sem perceber.
Você diz “sim” quando queria dizer “não”, se cobra por coisas que nem deveria estar cobrando, pensa dez vezes antes de fazer alguma coisa porque imagina o que os outros vão pensar, escolhe aquilo que parece mais seguro, mesmo quando existe uma parte sua querendo outra coisa.
Depois de um tempo, fica difícil saber o que é realmente seu e o que você aprendeu a fazer para se adaptar.
E é aí que aparece aquela sensação estranha de vazio.
Não necessariamente porque você não tenha uma identidade ou porque exista alguma coisa errada em você. Mas porque, quando passamos muito tempo abafando aquilo que sentimos, queremos ou pensamos, vamos perdendo o contato com essa parte original de nós.
É como tentar ouvir uma música enquanto tem dez pessoas falando ao mesmo tempo. A música tá ali, mas você não consegue escutá-la direito.
Por isso, quando eu falo sobre transformação, não estou falando sobre você se tornar uma pessoa diferente. É exatamente o contrário.
Estou falando sobre conseguir retirar, aos poucos, aquilo que foi colocado entre você e quem você realmente é.
E isso começa com perguntas muito simples.
“Eu realmente quero isso ou estou fazendo porque tenho medo de desagradar alguém?”
“Eu não gosto disso ou aprendi que não deveria gostar?”
“Essa escolha combina comigo ou combina com a pessoa que eu acho que deveria ser?”
“Se ninguém pudesse me julgar, o que eu escolheria?”
Você começa a perceber que talvez tenha passado anos tentando conquistar coisas fora e acabou se perdendo de você mesma.
E não, isso não significa que tudo foi em vão.
Você não precisa fingir que nada aconteceu, esquecer as coisas que viveu ou transformar tudo em uma grande lição de vida. Tudo o que aconteceu com você teve importância naquele momento.
Mas você pode começar a aprender a desaprender algumas coisas.
Você pode ter aprendido a desconfiar mas, mesmo assim, pode aprender a confiar novamente.
Pode ter aprendido a se diminuir mas, aos poucos, parar de fazer isso.
Pode ter passado muito tempo tentando agradar e descobrir que não quer mais fazer isso.
Pode ter se acostumado tanto a ouvir a opinião dos outros que esqueceu como é ouvir a sua própria.
A transformação verdadeira acontece quando você finalmente consegue se tornar aquela mulher que imaginou que deveria ser, e começa a retirar tudo aquilo que não combina mais com você.
Comece retirando todos os medos que você aprendeu, as culpas que carregou, as expectativas que criou, os papéis que assumiu, as regras que ninguém mais lembra de onde vieram, mas que continuam comandando sua vida.
E quando você começa a tirar isso do caminho, uma coisa muito interessante acontece: você começa a se enxergar novamente, e naturalmente também começa a viver de um jeito mais seu.
Entenda que não perfeito. O medo e as dúvidas continuaão existindo, mas será mais verdadeiro.
Talvez o autoconhecimento não seja descobrir quem você é.
Talvez seja, em grande parte, parar de se afastar de quem você já é.